
David Bonneville (n. Porto, 1978) é um cineasta português. Viveu e trabalhou no Porto, em Lisboa, Barcelona, Paris e Londres.
A sua curta-metragem Heiko obteve uma menção especial no Festival de Slamdance, Park City, Utah, nos EUA, e esteve nomeado no New York ImageOut Film Festival, no Philadelphia LGBT Film Festival, no Toronto InsideOut Film Festival, em Londres, Amsterdão, Bruxelas, Barcelona, Tel-Aviv, Lisboa, Milão e Turim. Bonneville foi realizador convidado no Festival de Berlim, tendo o seu filme sido seleccionado pela distribuidora Alemã Salzgeber e pela Peccadillo Pictures, do Reino Unido.
Licenciou-se em som e imagem pela Universidade Católica Portuguesa e pela Universidade Pompeu Fabra, em Espanha. Ganhou a bolsa por mérito Académico da Universidade de Westminster para o Master of Arts em Argumento e Produção para Cinema e Televisão.
Foi realizador seleccionado para o Programa de Criação Artística da Fundação Gulbenkian / DFFB.
Foi assistente de realizadores como Manoel de Oliveira, Jorge Cramez, Jaume Balagueró e Douglas Gordon. O filme Maquete, o seu primeiro filme, ganhou uma menção honrosa em Barcelona e foi exibido em Lisboa, Porto, Clermont-Ferrand, Londres, Berlim e São Paulo.
L'Arc-en-Ciel, o seu último filme, tem estreia prevista na RTP2 ainda em 2009.
Site oficial do cineasta : http://www.davidbonneville.net/
Seria interessante se pudesse contar o caminho que percorreu e que o levou ao cinema como opção de carreira e de vida?
Sempre tive uma forte inclinação para as Artes. Eu brincava encenando teatros com bonecos que esfarrapava para os manusear atrás do meu armário do quarto (tipo Marretas, fantoches). Desenhava imenso, pintava, recortava, encenava, etc. Na minha turma do colégio era conhecido como o grande desenhador. Aos 15 anos entrei no curso geral de Artes Visuais, e no 12º ano tinha um horário fabuloso com muitas tardes livres. Ia ao cinema de 2 a 3 vezes por semana, sozinho ou acompanhado. A dada altura comecei a não tolerar certos filmes que ia ver com amigos. Comecei a seleccionar rigorosamente, a rejeitar certos filmes que considerava excessivos, os que se impunham ao espectador de uma forma estridente, violenta e gratuita. Apaixonei-me pela sétima arte neste processo de selecção. Confesso que não dava muita importância à actividade cinematográfica até esse ano tão decisivo.
A licenciatura em Som e Imagem na Universidade Católica abriu mesmo no ano em que ia entrar para a universidade e resolvi trocar a minha opção inicial, o Design, pelos Audiovisuais. Embora o Som e Imagem não seja a clássica Escola de Cinema, tem uma formação mais ampla, englobando áreas diversas como a história, a filosofia, a religião, e outras artes, não exclui módulos práticos e teóricos exclusivamente de cinema. A escolha pela 7a Arte e audiovisuais faz todo o sentido pois engloba todas as artes, tudo aquilo com o que eu me identifico e pratico, a escrita, a ficção, a fotografia, a música, o design, a arquitectura, a história, a direcção de actores. Posso dizer que houveram filmes que me marcaram especialmente e que contribuíram em grande medida para a minha escolha: Fargo dos irmãos Cohen, Gadjo Dilo de Tony Gatlif, Naked do Mike Leigh e Il Decameron de Pasolini.
Vive actualmente entre Lisboa e Londres, por opção ou acha difícil viver em Portugal só de Cinema?
É difícil viver só de cinema em qualquer parte do planeta; talvez em Hollywood seja mais fácil depois de entrar na indústria e conhecer as pessoas certas, mas como o cinema vive de subsídios para projectos específicos que têm uma duração definida, torna-se complicado ter uma continuidade e uma estabilidade. São poucos os postos de trabalho com uma continuidade prolongada e ininterrupta na actividade cinéfila. Um produtor, um assistente de produtor – que acompanhe o desenvolvimento de projectos, na leitura de guiões, etc., o departamento de finanças de uma produtora, estes são os que mantêm a máquina a rolar. São postos que em princípio poderão estar activos e em continuidade numa produtora.
Uma equipa de cinema monta-se só quando se executa o projecto, depois de obter financiamento. Quando a produção do filme termina, os técnicos e artistas separam-se, daí serem freelancer. Saltam de projecto em projecto e aqui reside a dificuldade em manter uma vida economicamente estável. Uma grande quantidade de contactos, poderá facilitar o conseguir emprego e andar de filme em filme, e passar de uma produção a outra, mas se não há filmes em execução torna-se um abismo.
Numa distribuidora também se terá um trabalho continuo, sempre que a empresa tenha produtos para vender/negociar/produzir, isto é um catálogo de filmes activo.
Trabalhou com grandes mestres do Cinema, como Manoel de Oliveira, Jaume Balagueró, entre outros, com qual você gostou mais de trabalhar?
Eu adorei trabalhar com o mestre. Essa foi uma grande aventura que dificilmente esquecerei. Fui assistente pessoal de Oliveira na rodagem de Um Filme Falado, quando ele fez 97 anos e era maravilhoso vê-lo – como ele se equilibrava no navio em andamento; como ele chegava do Norte de África, directo de uma filmagem depois de um dia de viagem até Lisboa, e ainda tinha energias para ir para o Porto, na mesma noite, para não perder tempo. Conversar com o mestre é uma experiência única, falar não só de cinema mas sobre a vida, a política, a religião, a família. Duas das entrevistas que lhe fiz, posteriores à rodagem, estão arquivadas na Casa do Cinema Manoel de Oliveira. Uma em formato de imprensa, na revista bilingue Latitudes Cahiers Lusophones e outra em vídeo para a B.TV – Televisão de Barcelona, entrevista feita no âmbito do Festival de Artes e Letras Portuguesas.
Além de ser realizador, director de arte é argumentista de curtas metragens, onde alguma das suas curtas correram meio mundo, qual destes três trabalhos gosta mais de fazer?
O trabalho que mais gosto de fazer é sem dúvida o de realizar. É na realização que concretizo em imagens e acções tudo aquilo que escrevi e imaginei. A escrita e direcção artística estão implícitas nesse processo. O trabalho em equipa é fascinante porque cada elemento contribui para o projecto final. Sozinho é muito complicado fazer um filme. Eu adoro o princípio da sinergia e gosto que as pessoas da minha equipa sintam que estão a contribuir criativamente para o filme.
Os meus projectos têm circulado muito, não só pela Europa mas também pela América (EUA, Canadá, Uruguai). Os meus 2 últimos filmes (“Heiko” e “L’Arc-en-Ciel”) foram recentemente seleccionados para um Festival na Índia e um num festival de Cabo-verde. Acabo de chegar de Turim, onde fui apresentar o “Heiko” e fico muito satisfeito de ter o meu trabalho reconhecido em lugares e culturas tão diversas.
Acredita que algum dia os filmes portugueses podem ser mais vistos do que os estrangeiros?
Acredito e já aconteceu. Portugal já viu sucessos de bilheteira internacionais com filmes como o Vou para Casa de Manoel de Oliveira (2001). O Crime de Padre Amaro (2005), patrocinado pela SIC, também foi um recorde de bilheteira para um filme português. Não é comum acontecer mas já aconteceu e acredito plenamente que se voltará a repetir.
Portugal é o país europeu com a maior proporção de trabalhos exibidos nos principais festivais internacionais, querendo dizer que a qualidade artística dos filmes é alta. O consumo interno dos filmes é muito baixo provavelmente pelo mesmo motivo. Cada filme tem as suas especificidades e os cineastas devem respeitar a natureza dos seus projectos, independentemente de querer agradar, ou não, a um vasto público.
Qual a sua opinião sobre o ensino da sétima arte em Portugal, comparado com outros países, visto que você estudou em Portugal, Reino Unido, Espanha e Alemanha.
É tudo parecido e a resposta é só uma: depende do professor / tutor que se apanha. Sei que há excelentes professores e estruturas em Portugal. Toda a minha bagagem teórica e prática de base foi a da licenciatura em Portugal, sem qualquer dúvida. Tive excelentes professores, tal como tive péssimos. Havia muitos professores estrangeiros no meu curso, mas a maioria eram portugueses, e tanto tive professores portugueses interessados, dedicados, justos e inteligentes como os tive preguiçosos, abusadores e desinteressados. Com os estrangeiros acontecia o mesmo. Em Inglaterra também encontrei tutores muito bons e outros muito maus; e o método ingles é mais estricto, menos criativo mas mais exigente, o que por um lado é bom para aprender as bases. Eu identifico-me mais com a nossa metodologia, da Europa continental.
Como considera o actual panorama para os novos estudantes de Cinema ?
Floresceram muitos cursos de cinema e audiovisuais em Portugal nos últimos 12 anos, o que é maravilhoso. O actual panorama não será muito diferente de há 6 anos atrás, que foi quando eu me licenciei; poderá ser ainda mais complicado talvez para os recém-licenciados por haver tanta gente formada na mesma área e à procura de emprego!…mas é sempre difícil conseguir trabalho no cinema se não se conhece ninguém que possa funcionar como padrinho / madrinha da profissão.
Os estágios são uma valiosa ajuda e há que tirar proveito disso, este é o meu conselho.
Ainda só escreveu curtas não está a pensar em começar a escrever longas metragens?
Eu já tenho uma longa escrita, é um thriller de ficção científica, que muitos poderão estranhar pelo facto de os meus filmes, pelo menos até ao momento, serem mais artísticos e “autorais”. Mas é um projecto fantástico que espero ver realizado dentro de poucos anos. Teve uma recepção magnífica perante os meus tutores Ingleses e outros profissionais do sector a quem fiz uma pitching session (uma breve exposição oral do projecto com vista à sua produção / execução / venda).
Estou a escrever outra longa, de produção menos complexa e cuja acção poderá decorrer em qualquer cidade europeia. Este projecto ambiciona ser a minha primeira obra cinematográfica de longa-metragem a realizar. Tenho apontamentos para outros projectos longos e estou a acabar de escrever uma nova curta de ficção. Estou também a avançar com um projecto para um documentário.
Onde podemos ver um próximo trabalho seu?
Em princípio poderão ver o meu ultimo filme, L’Arc-en-Ciel, com duração de 20 minutos, na RTP2 em data a definir. Para a data concreta poderão consultar a minha página web que tento manter sempre actualizada: www.davidbonneville.net
O Heiko estreia na Alemanha e em Israel em Junho, Londres em Julho e Barcelona em Outubro. De momento é este o calendário. A ver vamos se poderei acrescentar mais actividade a lista…
A origem do seu nome não é português? Se perguntarem a sua nacionalidade, o que responde?
Perguntam-me a minha nacionalidade quase todos os dias em Londres, e eu respondo que sou português, porque é um facto, nasci e cresci em Portugal. Se, numa conversa mais longa, ou na troca de contactos, as pessoas dizem que o meu nome não soa muito português, nem David, nem o Bonneville. Eu respondo que David é um nome de origem hebraico, o rei David que derrubou o gigante Golias do Antigo Testamento da Bíblia (ainda que nem eu nem a minha família sejamos judeus). Quanto ao apelido Bonneville, vem do lado materno, da minha bisavó Marie Rose Kaiser Bonneville, que era francesa e holandesa, e do meu avô que tem dupla nacionalidade, francesa e portuguesa.
Nenhum comentário:
Postar um comentário